BILAC E A REGENERAÇÃO DO RIO DE JANEIRO

 

Alvaro Santos Simões Junior – UNESP/Assis

 

 

Esta comunicação é uma breve apresentação de algumas idéias defendidas em tese de doutoramento em fase final de redação sobre a poesia satírica de Olavo Bilac. O autor de Poesias (1888) publicou de 1887 a 1904 centenas de poemas satíricos em diversos periódicos cariocas e em dois paulistanos. Como a sátira pretende corrigir certos desvios de comportamento humano, sejam eles de natureza social ou moral, ao expô-los ao ridículo,[1] pode-se dividir a poesia satírica bilaquiana em três fases distintas de acordo com o alvo visado.

De 1887 a 1889, Bilac empenhou-se nas campanhas abolicionista e republicana, colaborando com os jornais A Semana (Rio de Janeiro, 1887), Novidades (Rio de Janeiro, 1887-1889), Diário Mercantil (São Paulo, 1887-1888), Vida Semanária (São Paulo, 1887-1888) e Cidade do Rio (1888-1889).

Após a ascensão de Floriano Peixoto ao poder, o poeta, que fora funcionário público durante o governo anterior, dirige, de 1891 a 1893, suas farpas contra o “ditador” nos jornais Cidade do Rio (1891-1893) e O Combate (Rio de Janeiro, 1891-1892). A atuação política de Bilac incomodou o Marechal de Ferro, que o mandou encarcerar por duas vezes.[2]

De 1894 a 1904, o poeta, perfeitamente integrado à imprensa, emprega a força corrosiva de suas sátiras contra as mazelas urbanas do Rio de Janeiro. Publicam seus poemas satíricos o matutino Gazeta de Notícias (Rio de Janeiro, 1894-1904), o vespertino A Notícia (Rio de Janeiro, 1895-?) e as revistas ilustradas A Cigarra (Rio de Janeiro, 1895) e A Bruxa (Rio de Janeiro, 1896-1897), editadas pelo poeta em parceria com o desenhista Julião Machado (1863-1930).

As sátiras e as crônicas publicadas no período em que se dedicou à imprensa (1887-1908) atestam o engajamento político e social de Olavo Bilac. O poeta, no entanto, assinava a maioria de seus poemas satíricos com pseudônimos. Apenas alguns deles, publicados n’A Notícia, trazem as inconfundíveis iniciais O. B.

A utilização de pseudônimos não estava simplesmente a serviço da ocultação da autoria, pois os leitores, de modo geral, sabiam a quem pertenciam muitos deles, como, por exemplo, Fantasio, associado a Bilac em crônicas.[3] O pseudônimo serviria antes para identificar um estilo. Segundo o próprio poeta, ao lado do estilo sério dos poemas parnasianos e das crônicas coexistiria o estilo leve das sátiras em verso e também de várias crônicas mais ou menos descontraídas ou irreverentes.[4] Com isso, apresenta-se então um problema: como o poeta que nos seus livros de poesia parecia infenso à realidade circundante pôde simultaneamente criar textos voltados a problemas urbanísticos, econômicos, políticos e sociais? O que se pretende demonstrar aqui é que essa produção teria surgido do confronto das convicções estéticas e éticas do poeta com uma realidade oposta a elas.

O objeto de estudo da tese de doutoramento já mencionada é a terceira fase da poesia satírica de Olavo Bilac (1894-1904), marcada pelo combate aos problemas da cidade do Rio de Janeiro. Pode-se imaginar que, deixando por algum tempo sua torre de marfim, onde burilava seus versos artesanais, o poeta, ao caminhar pelas ruas cariocas em demanda de sua banca de jornalista, deparava-se com uma realidade totalmente refratária ao mundo hierático, ordenado e asséptico do Parnaso e, desapontado, reagia crivando de ironias e sarcasmos os aspectos mais salientes dessa realidade, caracterizada pela desordem e pela sujeira.

Certo dia, uma tradição das festividades públicas cariocas despertou a ira de Fantasio. As autoridades federais e municipais possuíam o vezo de erigir construções improvisadas e precárias, feitas com lona e madeira, por ocasião de eventos públicos. Construíram-se, por exemplo, uma réplica da torre Eiffel para a recepção de um presidente argentino (sic) em 1899 e, no começo da década, um coreto em homenagem ao presidente Monroe, autor da frase que se tornaria lema do imperialismo yankee. Porém, findas as festividades, os pavilhões permaneciam longos períodos expostos ao sol e às intempéries, deteriorando-se. A visão dessas construções decadentes, geralmente edificadas na área central, feria o senso estético de Olavo Bilac, que, nas suas crônicas e textos satíricos, pedia e, quando atendido, comemorava a demolição e a retirada desses monumentos do mau gosto.[5] Um desses barracões, levantado no centro do Largo da Lapa, muito incomodava Bilac, que, nas suas crônicas, dirigia-se ao prefeito implorando sua derrubada. Fantasio, que também não suportava a vista da construção, fulminou o monstro com um poema publicado em 19 de novembro de 1897 na Gazeta de Notícias.

 

O MONSTRO

 

Ah! quando tudo cai, — ó barracão da Lapa!

Tu, por uma razão que à inteligência escapa,

Hás de eterno ficar, da cidade no mapa,

Toca de malandrins, de vagabundos capa?...

 

Como um escárnio, o sol bate no monstro em chapa:

O meu ódio, impotente, estorce-se à socapa...

E Ele, numa atitude imbecilmente guapa,

Sujo e grosso, no chão do largo se acachapa!

 

Oh! hei de ir ao Prefeito, ao Arcebispo, ao Papa,

A Deus!... Para aplacar a raiva que me rapa,

Cairei sobre o monstro a pontapé e a tapa!

 

E hei de expirar, na fúria atroz que me esfarrapa,

Morto, — não por beber arsênico ou zurrapa,

Porém por não poder com o barracão da Lapa![6]

 

Como se vê, o poeta escolheu a forma do soneto para atacar o pavilhão e, segundo o gosto parnasiano, utilizou o verso alexandrino perfeitamente hemistiquiado, isto é, dividido em dois versos hexassílabos:

 

Ah! quando tudo cai, / — ó barracão da Lapa!

Tu, por uma razão / que à inteligência escapa,

Hás de eterno ficar, / da cidade no mapa,

Toca de malandrins, / de vagabundos capa?...

 

Entretanto, a monorrima em apa representava um ultraje aos preceitos parnasianos, que condenavam as rimas fáceis por sua vulgaridade, pobreza e monotonia.[7] Mas há uma possível explicação para a utilização dessa rima proscrita na forma poética privilegiada pelos parnasianos.

Fantasio expressou seu ódio pela permanência no mapa da cidade do barracão da Lapa, “toca de malandrins” (primeiro quarteto). Irritava-o a “atitude imbecilmente guapa” do monstro “sujo e grosso” (segundo quarteto) a ponto de levá-lo a cogitar destruir o pavilhão “a pontapé e a tapa” (primeiro terceto) ou, então, no clímax da raiva, beber “arsênico ou zurrapa” (segundo terceto). Olavo Bilac, que falava pela boca de Fantasio, não poderia aceitar a “atitude guapa” da construção porque admirava profundamente uma outra cidade cujo cuidado com a organização e a limpeza não permitiria semelhante desleixo. Desde sua primeira viagem à Europa em 1890, o poeta adotou Paris como padrão urbanístico para as reformas que defendia para o Rio de Janeiro. Numa crônica de 1904, em que recorda o seu desembarque no cais Pharoux, o poeta revela como seus sentidos, aguçados com a contemplação das belezas dos países civilizados, passaram a perceber dolorosamente o atraso urbanístico da cidade.[8]

Para quem combatia a sujeira e as ruas tortas da sua cidade, a permanência “eterna” do estorvo inútil e mal acabado num logradouro movimentado era um acinte. Com rara felicidade, o poeta conseguiu transmitir ao leitor a sua indignação com o monstro.

Todos os versos terminam em apa para rimar com Lapa, que aparece no final do primeiro e do último verso. Desse modo, a monorrima estaria sempre a lembrar o barracão da Lapa e a interromper de maneira antieufônica a cadência solene dos alexandrinos. O leitor da época, acostumado à variedade sonora das rimas e à fluidez dos versos parnasianos, deveria estranhar a monorrima como um objeto estranho à fruição do texto, como uma pedra no caminho da leitura — tal como o pavilhão quebrava a harmonia do largo da Lapa e impedia o livre trânsito dos pedestres.

Com esse recurso poético, Bilac fez com que o leitor compreendesse a sua experiência de desprazer com a feiúra e a inutilidade do barracão. Mas essa percepção empática não se resolveria no leitor por um efeito de indignação, mas pelo reconhecimento do ridículo de tudo: do pavilhão, da sua “conservação” pelas autoridades, da complacência dos cariocas com a sua existência e até da fúria impotente de Fantasio, um “heterônimo” gaiato do poeta.

No entanto, é preciso observar que o ridículo não atingia as convenções parnasianas. Isto ocorria porque a sátira utilizou a paródia como veículo para atingir um alvo que é “extramural”, isto é, que se situa fora das convenções literárias.[9] Há evidentemente certa irreverência nesse uso do soneto parnasiano, mas não se pode atribuir a Fantasio uma negação ou questionamento crítico da poesia parnasiana por meio da paródia.

O poeta, informado por uma estética neoclássica, não poderia aceitar a “caótica” realidade carioca. Pouco a pouco, o projeto estético delineado em Poesias foi adquirindo contornos ideológicos. A preocupação excessiva com a forma, assumida programaticamente no poema-manifesto que abre o livro e confirmada pela rigorosa fatura do verso ao longo da obra, iria refletir-se na postura ideológica de Olavo Bilac. Os valores de equilíbrio, ordem, fluência, objetividade e perfeição plástica passaram de estéticos a ideológicos. Estimulado a opinar sobre os problemas sociais e políticos do Rio de Janeiro, em virtude de sua atividade jornalística, o poeta tenderia a defender soluções políticas “parnasianas”, manifestando grande interesse pelos aspectos externos da cidade — ruas, praças, edificações, meio ambiente etc. —, ou seja, pela sua forma. Com uma pitada de irreverência, poderíamos dizer que o parnasianismo puro dos poemas sérios daria origem ao parnasianismo aplicado da poesia satírica.

Ao poeta parnasiano, repugnava o sujo, o feio, o decadente e o atrasado, que eram representados não apenas pelos pavilhões das festas cívicas, mas também pelos buracos, pelo mato, pelas ruas estreitas e tortuosas, pelo lixo e — o que é mais importante — pela população mestiça, suja, doentia e analfabeta do Rio de Janeiro. A aversão do poeta por esses cariocas pode ser percebida em crônicas e poemas satíricos, que, pelas limitações de tempo, não podem ser apresentados aqui.

A campanha de Bilac e outros intelectuais contra esses males deve ter contribuído para o apoio da opinião pública à reforma urbanística do Rio de Janeiro, promovida pelo presidente Rodrigues Alves (1902-1906). Antes mesmo de chegar às ruas, a Regeneração da cidade era um projeto perfeitamente delineado em alguns jornais, que construíram um “consenso” favorável ao “despotismo sanitário” do diretor-geral da Saúde Pública, Osvaldo Cruz, e à autoritária administração do prefeito “biônico” Pereira Passos, que arrasou quarteirões literalmente, derrubando construções antigas e de provável valor histórico e aterrando mangues, para corrigir o traçado das ruas, que não passavam de “vielas coloniais, estreitas, tortuosas, escuras, com declives acentuadíssimos”,[10] e abrir largas avenidas como a Central, a Rodrigues Alves e a Beira-Mar. A golpes de picaretas, o Rio, enfim, civilizava-se.

Quando a insatisfação das classes populares, na prática expulsas do centro da cidade pelas reformas e perseguidas em suas casas pela arbitrariedade dos agentes de saúde, deu origem à Revolta da Vacina (1904), Bilac lastimou a ação destruidora dos rebelados da Gamboa e Saúde, aos quais, enojado, chamou de “alcatéia”, “pântano” e “alfurja”.[11]

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 25 jan. 1903, p. 1, 1a. col.

___. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 25 jul. 1897, p. 1.

___. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 1. ag. 1897, p. 1, 2a. col.

___. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 23 out. 1904, p. 1 e 2.

___. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 20 nov. 1904, p. 1.

___., PASSOS, Guimarães. Tratado de versificação. 8a. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1944.

FANTASIO [Olavo Bilac]. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 19 nov. 1897. p. 1, 7a. col.

HUTCHEON, Linda. Ironie, satire, parodie. Une approche pragmatique de l’ironie. Poétique. Paris, v. 46, p. 140-55, avr. 1981.

___. Uma teoria da paródia. Lisboa: Edições 70, 1989.

JORGE, Fernando. Vida e poesia de Olavo Bilac. 4. ed. rev. e aum. São Paulo: T. A. Queiroz, 1991.

SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina. Nova ed. rev. e amp. São Paulo: Scipione, 1993.



[1] Cf. HUTCHEON, Linda. Ironie, satire, parodie. Une approche pragmatique de l’ironie. Poétique. Paris, 46:140-55, avr. 1981. p. 144.

[2] V. JORGE, Fernando. Vida e poesia de Olavo Bilac. 4. ed. rev. e aum. São Paulo: T. A. Queiroz, 1991. p. 176-7 e 200-1.

[3] BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 1. ag. 1897, p. 1, 2a. col.

[4] A identificação de pseudônimos e nomes próprios com estilos diferentes foi feita pelo próprio poeta. BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 25 jul. 1897, p. 1.

[5] Quando Pereira Passos passou a expurgar a cidade dessas construções, o cronista Olavo Bilac apostrofou-as em sua coluna dominical. “Chorai, barracões de todos os estilos, de todos os feitios, de todas as cores [...]! chegou a vossa última hora... / Um prefeito, que não gosta de monstros, jurou guerra implacável e feroz à vossa raça maldita: preparai-vos todos para cair, fortalezas do mau-gosto [...] — como já caiu o vosso companheiro do largo do Paço, aos golpes dos martelos abençoados da Prefeitura!” Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 25 jan. 1903, p. 1, 1a. col.

[6] FANTASIO. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 19 nov. 1897. p. 1, 7a. col.

[7] Cf. BILAC, Olavo, PASSOS, Guimarães. Tratado de versificação. 8a. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1944. p. 77.

[8] BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 23 out. 1904, p. 1 e 2.

[9] Segundo Linda Hutcheon, a paródia stricto sensu seria uma forma “intramural”, voltada apenas para normas estéticas. Uma teoria da paródia. Lisboa: Edições 70, 1989. p. 38.

[10] SEVCENKO, N. A Revolta da Vacina. Nova ed. rev. e amp. São Paulo: Scipione, 1993. p. 40.

[11] BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 20 nov. 1904, p. 1.